artigo 05
Implantação de Parques Industriais::
Arquiteto e Gestão Pública
Resumo
Este trabalho procura mostrar a preocupação do arquiteto, urbanista e paisagista nas propostas de implantação de parques industriais de pequeno, médio e grande porte das cidades brasileiras que apresentem alguma vocação industrial. Por outro lado, também ao gestor público caberão soluções políticas para que junto ao arquiteto e outros profissionais, crie condições favoráveis à melhoria de qualidade de vida e possibilidade de desenvolvimento das áreas urbanas e rurais a nível municipal, regional e até mesmo, nacional. Para por em ação tal política, respeitando com inteligência, sensibilidade e economia o espaço vivenciado pela sociedade, os poderes públicos, orientados pelos profissionais a fins e principalmente pelo arquiteto, devem se basear numa análise criteriosa sobre o impacto dos elementos construídos, urbanos ou rurais, notadamente no que diz respeito às suas estruturas, suas complexas funções, assim como as características arquitetônicas volumétricas de seus espaços abertos e fechados.
Introdução
Falar em patrimônio histórico hoje em dia é falar muito além da simples preservação de monumentos ou elementos construídos que reflitam a história da sociedade. Ele engloba todo o meio ambiente, levando em consideração precípua o ecossistema, onde o habitat do ser humano é um conjunto de leis naturais que devem ser mantidas em equilíbrio para que todo o meio se mantenha estável e favorável ao desenvolvimento da vida.
Esta estabilidade do ecossistema que envolve o homem e outros seres vivos, as fontes de alimentação e mananciais, a atmosfera, rochas e o conjunto de elementos edificados pelo homem serão com certeza mensuráveis em longo prazo e produzirão a cultura e a história de toda a sociedade.
Por outro lado, a sobrevivência do homem sobre a terra depende de sua adaptação ao habitat, gerando alimento, abrigo, artefatos, locomoção e comunicação, que por sua vez necessitam de industrias transformadoras dos diversos setores existentes.
Compete ao homem e toda a sociedade encontrar uma forma de equilibrar a preservação deste frágil ecossistema e o desenvolvimento industrial para a produção de artefatos tão importantes ao bem viver humano.
Este equilíbrio poderá ser conquistado desde que haja um interesse político e social e disposição em vencê-lo a qualquer custo através de uma tarefa interdisciplinar, na qual se envolverão pesquisadores da área de ecologia, biologia e botânica, e na área do projeto: os arquitetos, engenheiros, geólogos, geógrafos, meteorologistas e economistas, que desenvolverão uma proposta técnica cientifica para implantação e intervenção de indústrias sem alterar o meio ambiente.
Ao arquiteto como profissional que organiza o espaço físico e projeta as edificações cabe uma enorme contribuição, buscando melhoria da qualidade de vida, gerando possibilidade de recuperação do habitat natural e criando condições de um desenvolvimento industrial sustentável.
Locais de implantação
Um espaço vazio não pode ser considerado uma área ideal para se implantar um parque industrial, sem antes se levar em consideração sua população de entorno, sua cultura regional e sua biodiversidade.
Em termos de ocupação deve-se considerar basicamente as áreas urbanas e as áreas rurais. Em cada uma delas deve-se considerar suas características, devendo sua ocupação ocorrer somente depois de qualificado sua potencialidade, sua geo morfologia, sua população, vegetação e paisagem.
Em qualquer hipótese de implantação de parque industrial, sendo a área urbana ou rural, não se deve jamais destruir as qualidades ambientais e físicas do local, devendo-se sim, levar até ela apenas a infra-estrutura básica, ou seja, viária e de serviços e distribuir o espaço a partir do dimensionamento dos lotes mínimos e máximos, definindo assim uma densidade populacional homogênea provida por serviços de suporte em pontos de interesse.
A escolha de um local para se implantar um parque industrial também deve ser o resultado de uma pesquisa quanto a sua localização, considerando as distâncias a percorrer com a matéria prima e produto acabado, distância dos centros de consumo, custo de mão de obra, custo de energia, etc. Uma vez selecionado as áreas mais favoráveis em termos econômicos, a etapa seguinte é a de análise espacial e ambiental, devendo considerar os seguintes aspectos:
- Distâncias do centro urbano;
- Terreno disponível no entorno da área para abrigar as unidades do processo: rodovias e vias de acesso, áreas de carregamento, utilidades e serviços;
- Energia elétrica e água;
- Área para assentamento de mão de obra;
- Área de preservação;
- Cinturão verde;
- Hidrovias, rodovias e ferrovias de escoamento dos produtos;
- Condições para despejo industrial tratado;
- Áreas para expansão;
- Geo morfologia e clima.
O assentamento de um parque industrial numa região implica necessariamente numa sobreposição de atividades variadas numa localização com uma das seguintes características:
- Centro urbano;
- Periferia de um centro urbano;
- Zona rural com atividades agrícolas ou pastoris;
- Zona rural sem atividade.
Qualquer das regiões acima receberá o impacto resultante das industrias a serem implantadas, gerando as seguintes interferências:
Modificação da paisagem natural;
Substituição das áreas verdes por áreas pavimentadas;
Aumento da população local;
Divisão da área em vias de tráfego;
Canalização para a área de tráfego pesado.
Participação do Arquiteto
Como em todo estudo de viabilidade de implantação de empreendimentos, o estudo de implantação de um parque industrial deve ter a participação de uma equipe interdisciplinar, na qual cada um atua em sua área de conhecimento, mas se relacionando com os outros em conceitos, dados e propostas.
O arquiteto, como profissional que cria o espaço, deve estar envolvido no primeiro momento de decisão, ou seja, no momento em que ficam definidos os objetivos do empreendimento e se formula o programa de uso, ficando claro que o espaço físico é resultante direto das decisões políticas e administrativas.
Quando o profissional da área de arquitetura e urbanismo não participa desta etapa, recebendo a viabilidade econômica e os objetivos já definidos, o que ele recebe na realidade é o espaço já comprometido e desenhado. O que lhe resta é uma adequação da região ao empreendimento, em muitos casos, apenas o trabalho de amenizar os efeitos colaterais e embelezar o inviável.
A decisão sobre o vulto do projeto, no que tange o espaço físico e o meio ambiente, tem que ser discutido também sobre estes aspectos, envolvendo possíveis efeitos no equilíbrio do ecossistema, seus efeitos no meio urbano ou rural e outras influências físicas e sociais que terão que ser discutidas com participação do arquiteto e outros profissionais.
O programa de Uso e definição do layout de implantação
O programa de uso de um parque industrial está intimamente ligado à vocação local e/ou regional, podendo ocorrer a partir de um único elemento industrial; a geração de industrias de apoio a industria mãe ou apenas receber industrias variadas sem qualquer ligação entre si ou uma das outras.
Atualmente a tecnologia está muito desenvolvida e o que se observa é uma industria piloto impulsionando o surgimento de outras em paralelo, gerando subprodutos básicos para se fechar um círculo de produção.
Em qualquer dos casos acima mencionado o parque necessitará de espaço físico variado, gerando áreas de diversos tamanhos com necessidades específicas a cada uma delas. O arquiteto, conhecedor desta problemática irá criar um organograma de forma a adequar os diversos tipos de produção que por sua vez gerará equipamentos, edifícios, área de estocagem e distribuição, área de expansão, etc.
No processo de implantação de um parque industrial, cabe ao arquiteto junto ao gestor público:
1 - Planejar todo o conjunto do parque industrial de forma a harmonizar seus elementos com a paisagem local sem devastá-la ou transformá-la;
Ao se implantar um parque industrial, independente de seu tamanho ou características, não se pode desconsiderar a área de intervenção. Sendo urbana ou rural, vários fatores deverão ser estudados para que não se altere o meio ambiente.
Normalmente o que se vê é o gestor público buscando áreas esquecidas ou desprezadas, como fundos de vale, várzeas, grandes áreas urbanas centrais deterioradas, nascentes ou até mesmo, matas nativas, sendo o processo de implantação ainda mais devastador, pois nem mesmo a preocupação com a preservação é lembrada.
Ainda que se usem tais áreas, o que já não deveria ser feito, os profissionais envolvidos neste processo deve buscar soluções de maneira a criar uma conciliação entre o elemento construído e a natureza ou o elemento construído e seu entorno, de maneira simples, com custos baixos, para que o crescimento não seja confundido com um gerador de degradação ambiental.
2 - Produzir uma plasticidade forte e expressiva nos equipamentos urbanos;
Quando se fala em parques industriais, necessariamente se pensa em lugares poluídos, pesados e sem vida, onde a cor predominante é o cinza da fumaça e a principal atividade é a produção, ainda que esta venha a se sobrepor às qualidades de vida.
O arquiteto, ao projetar os elementos urbanos para um parque industrial, deve lembrar que estes elementos amenizarão em parte o efeito visual poluído. Portanto, cabe ao profissional urbano, desenvolver tais projetos atendendo as necessidades básicas do usuário como também criando um visual alegre e descontraído de maneira que ao se juntar aos elementos industriais, forme um conjunto harmonioso sem perder as características próprias do parque.
3 - Projetar com material e tecnologia apropriada aos fins a que se propõe;
Neste item, é comum novamente a intervenção do gestor público, buscando com os parcos recursos municipais criar uma implantação de baixo custo. Isto pode ser observado em vários parques industriais distribuídos pelo país, onde preocupações básicas como guias e sarjetas, pavimentação, rede de esgoto, captação de água pluvial, iluminação pública e contenção das encostas são relegadas a um segundo momento de implantação que jamais será lembrado, pondo em risco a vida do usuário e comprometimento do ecossistema local. Cabe ao arquiteto, junto aos demais profissionais nas áreas técnicas, buscar soluções de baixo custo, que apresentem resultados satisfatórios para atender a necessidade da implantação e a realidade econômica do gestor público.
4 - Harmonizar e integrar a outros parques vizinhos ou contíguos;
Ampliação de parques industriais antigos são uma realidade nas cidades brasileiras, porém, quase sempre não se é dado a importância de buscar uma integração entre a parte existente e a área ampliada. O resultado é sempre preocupante, não só visualmente, como também tecnicamente, corredores de escoamento são interrompidos, remodelação de sistemas viários são esquecidos e tantos outros itens, desprezados.
O arquiteto deve lembrar que ao projetar uma ampliação ou interligar um novo empreendimento a outro já existente, vários fatores deverão ser considerados, de modo a integrar todos em um único conjunto bem como estabelecer um vínculo harmônico à malha urbana ou rural ao qual está implantada.
5 - Estabelecer diretrizes de desenvolvimento a curto, médio e longo prazo para a vida útil do empreendimento;
Um parque industrial é antes de tudo um elemento pertencente ao conjunto construído, urbano ou rural, que de maneira dinâmica, cresce e toma características próprias ao longo do tempo. Portanto, ao arquiteto cabe em seu projeto de implantação, criar condições ao gestor público para direcionar o seu desenvolvimento a curto, médio e longo prazo, produzindo e agindo com o empreendimento de maneira a alterá-lo de acordo com as necessidades a qualquer momento.
6 - Estabelecer previsões de áreas de expansão;
Como citado no item acima, o empreendimento é um elemento dinâmico, onde se precisa considerar seu crescimento. O arquiteto projetando um parque industrial deve necessariamente criar possibilidades de futuras expansões de área, bem como, estabelecer regras claras para que num futuro, estas ampliações não se descaracterizem através de agentes imobiliários ou mesmo gestores públicos.
7 – Estabelecer uma topografia ideal criando áreas relativamente planas para implantação das unidades industriais;
Não se pode esquecer que uma área voltada para produção industrial deve estar sempre bem resolvida topograficamente, ou seja, produzir áreas planas para implantação das unidades industriais. Ainda que a área escolhida não apresente tais características, cabe ao arquiteto buscar soluções topográficas de maneira a criar platôs, paralelos as curvas de nível, possibilitando a implantação dos equipamentos industriais de maneira satisfatória e economicamente viável. Ao se movimentar o terreno através de terraplenagem, o arquiteto também deve considerar os acessos que levam as áreas de implantação das unidades industriais, buscando às vezes soluções orgânicas no traçado viário no lugar de sistemas retilíneos;
8 – Projetar vias de acessos, buscando traçados mais diretos e econômicos, porém interligados e adaptados ao terreno;
Ao projetar a implantação de um parque industrial, o arquiteto deve considerar como elemento fundamental para o desenvolvimento do mesmo, os acessos. Não se pode conceber uma área industrial, onde a entrada de matéria prima e saída de produtos manufaturados sejam relegados ao interesse individual de cada unidade implantada.
Este problema deve ser encarado como base para o bom funcionamento de todo o conjunto, devendo aos profissionais planejadores e idealizadores buscar soluções lógicas para o traçado das vias de acesso e com isso estabelecer interligações e adaptações às características do terreno. Além disso, não se deve limitar o estudo apenas nos acessos internos do parque, mas também às vias externas que levam até o parque.
9 – Criar um paisagismo que se integre ao cenário original, devendo a movimentação de terra ser menor possível;
Em um processo de implantação de um parque industrial é natural e necessário que se faça adaptações no terreno e em conseqüência, seja alterado a cobertura vegetal existente no local. Porém, esta alteração deve ser sempre considerada como uma agressão ao meio ambiente, devendo ser criteriosa e com soluções a curto, médio e longo prazo. O arquiteto ao definir tais alterações deve buscar um paisagismo de fácil adaptação e manutenção sem com tudo, esquecer os resultados estéticos do mesmo.
10 – Dimensionar as áreas de cada unidade, considerando a necessidade a que se destina no terreno;
É comum em projetos desta natureza, a padronização de áreas destinadas à implantação das mais variadas indústrias. Porém, nem sempre a área definida em projeto é satisfatória à implantação para determinada produção. Cabe neste ponto ao arquiteto, definir em projeto, áreas que possam atender estas demandas, podendo em alguns casos haver desmembramentos ou fusões de glebas sem com isso haver o comprometimento do conjunto ou então, deixar em aberto as delimitações de áreas, sendo demarcado de acordo com a necessidade de cada unidade requerente.
Conclusão
O arquiteto e urbanista como profissional que trabalha na concepção do espaço físico tem cada vez mais obrigação e dever em contribuir junto ao gestor público no desenvolvimento dos parques industriais brasileiros, buscando a todo custo preservar nossa cultura, nossa paisagem, nosso ecossistema e com isso, resgatar uma melhor qualidade de vida a toda população.
A contribuição por parte deste profissional e de outros envolvidos na causa, se faz através de estudos, pesquisas e projetos de apropriação do espaço, considerando sua potencialidade de uso, suas características sócio-culturais, paisagísticas e geo morfológicas, aplicando conhecimentos históricos, artísticos e tecnológicos, buscando sempre soluções que sejam dotadas de:
- Melhor desempenho possível;
- Qualidade plástica e formal;
- Tecnologia adequada a nossa realidade;
- Custo compatível com o empreendimento;
O Brasil, que em décadas passadas deu grande impulso no desenvolvimento industrial, somente agora começa a tomar consciência da importância de se planejar e dotar seus parques industriais de infra-estrutura para uma melhor qualidade de vida.
A tecnologia que buscamos a todo custo terá que ser pensada e idealizada para adequar-se a nossa paisagem, mantendo o equilíbrio natural. Se pensada fora desse contexto, ao lado de uma possível contribuição em termos de diminuição de custos de processo, trará um desastre ecológico de proporções irreparáveis.
A cota de participação do arquiteto terá de ocorrer a partir das discussões iniciais de empreendimento, durante as tomadas de decisão e na elaboração do projeto básico, para que possa propor uma correta adequação do parque ao meio físico e participar no processo de implantação das industrias contribuindo para a formulação de uma nova tecnologia alternativa adequada ao conjunto.
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