artigo 09
Identidade Arquitetônica do índio Brasileiro
Arq. Ms. Irajá Gouvêa
Professor da Faculdade de Engenharia e Arquitetura e Tecnologia – UNIMAR - Marília
Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - FACCAT – Tupã
Resumo
A arquitetura como área de estudo é praticamente desconhecida nas pesquisas sobre a cultura indígena. Com raras exceções, o que normalmente se vê são levantamentos fotográficos ou esboços de elementos construtivos servindo como base ao estudo sociológico e/ou historiográfico.
Mas, vale lembrar, que a arte e em especial a arquitetura, está ligada a vida de todos os povos, especialmente dos povos indígenas, entre os quais, sua habitação, seu agrupamento construtivo e seu território, constituem os principais reservatórios de conhecimento de sua cultura. Assim como a língua, os conhecimentos matemáticos, a história e as ciências integram as áreas do conhecimento, também a arquitetura pode constituir-se como tal e ser estudada por meio dos conteúdos que lhes são próprios.
A percepção, a criação, a imaginação, a reflexão, a emoção e o sentimento são alguns dos aspectos que podem ser levantados nas produções construtivas, porém, sua organização espacial relacionando o elemento construído ao território, observado em diferentes leituras entre as várias nações indígenas, a variedade técnico-construtiva na feitura da habitação, variando de aldeia para aldeia, provoca a busca por informações mais detalhadas e respostas para novas indagações.
A ocupação territorial e o espaço geográfico do índio, determinando a escolha do local onde irá ser implantado a aldeia, os caminhos traçados e os locais determinados aos ancestrais, são alguns dos elementos a serem determinados pela ótica arquitetônica.
Esta riqueza de elementos distintos entre si, acontecendo num mesmo espaço de tempo, apresentando significação ora distinta e ora igual às demais, propicia uma gama imensa de informações que serão analisadas não só pela arte, mas também, servindo de instrumento à sociologia e antropologia.
Abstract
The architecture as study area is ignored practically in the researches on the indigenous culture. With rare exceptions, what usually see her are photographic risings or sketches of constructive elements serving as base to the sociological study and/or historiography.
But, it is worth to remind that the art and especially the architecture, is linked to the life of all of the people, especially of the indigenous people, among the ones which, his/her house, his/her constructive grouping and his/her territory, they constitute the main reservoirs of knowledge of his/her culture. As well as the language, the mathematical knowledge, the history and the sciences integrate the areas of the knowledge, also the architecture can be constituted as such and to be studied through the contents that are them own.
The perception, the creation, the imagination, the reflection, the emotion and the healthy feeling some of the aspects that can be lifted up in the constructive productions, however, his/her space organization relating the element built to the territory, observed in different readings among the several indigenous nations, the technician-constructive variety in the making of the house, varying of village for village, it provokes the search for more detailed information and answers for new inquiries.
The territorial occupation and the geographical space of the Indian, determining the choice of the place where will be implanted the village, the drawn roads and the certain places to the ancestral ones, is some of the elements to they be certain for the architectural optics.
This wealth of different elements amongst themselves, happening in a same space of time, presenting significance some different times and other times equal to the others, it propitiates an immense range of information that you/they will be analyzed not only for the art, but also, serving as instrument the sociology and anthropology.
Palavra-chave
Arquitetura, Indígena, elementos arquitetônicos, linguagem arquitetônica.
Introdução
A arquitetura, elemento integrante da arte está presente em todas as civilizações: nas culturas existentes na atualidade ou nas que existiram em tempos passados.
Desde idades mais remotas, as sociedades se agruparam em espaços determinados, procurando a proteção e conforto para manutenção da vida. Das figuras gravadas e pintadas nas paredes das grutas e cavernas aos elementos construtivos elaborados pelos povos antigos do Egito aos modernos prédios do conjunto destinados a abrigar as olimpíadas 2008 em Pequim, China, o homem buscou soluções espaciais para suprir suas fraquezas diante da natureza.
Com o passar dos tempos, as formas de expressão e comunicação da arquitetura, assim como sua função e significado, foram se modificando porque o modo de viver, as culturas, os valores e técnicas dos diferentes povos também se transformaram. Mas, em cada período da história da humanidade, algum tipo de elemento construtivo foi produzido. Pode-se conhecer boa parte dessa representação artística nos próprios lugares em que estão implantados ou, em outros casos, através de levantamentos sistemáticos destes elementos ou restos do que sobrou ao longo dos tempos.
Ao se buscar estes exemplares produzidos em diferentes tempos e lugares, compreende-se que o mundo é formado por múltiplas culturas, e que esta diversidade pode ocorrer num mesmo país ou numa mesma região. O Brasil, por exemplo, é formado por diferentes grupos étnicos e culturais: os povos indígenas, os descendentes dos povos africanos, os imigrantes e descendentes dos japoneses, italianos, portugueses, espanhóis e outros. Assim, encontram-se em nosso país não só várias línguas, religiões, formas de organização social, visões de mundo, mas também, diferentes produções artísticas entre elas, os elementos construtivos.
Em todas as regiões brasileiras, vemos elementos arquitetônicos expressando a sociedade de determinados grupos sociais, jardins japoneses com singelas pontes e vegetações adaptadas, chalés germânicos edificados em madeira, residências com murais em azulejo português e arabescos de origem do médio oriente, entre outros.
Os povos indígenas, da mesma forma, se diferenciam entre si e das outras culturas pela maneira de realizar sua arte, sendo os elementos construtivos, um dos mais impressionantes pelo simples fato da total integração à natureza e de sua origem, passada de geração em geração.
A arquitetura nas sociedades indígenas
Para o índio, a arte está presente em diferentes esferas da vida: nos rituais, na produção de alimentos, nas práticas guerreiras, nos locais de moradia, nos espaços ocupados pelo grupo, sobretudo em suas tradições passadas de pais para filhos de maneira a dar testemunho da vida de um povo.
As construções artísticas dos índios são construídas a partir de valores, regras, estilos, conhecimentos técnicos, materiais e concepções estéticas distintas em cada tribo. Assim como ocorre em outras etnias e culturas que existem no mundo, as construções nas sociedades indígenas são alguns dos elementos importantes na formação de identidades específicas, representando um suporte de memória ao indivíduo, ao grupo e a sociedade. Entretanto, sua arquitetura não se constituí em algo que não muda, que se transmite através de gerações de modo inalterado. Ela é constantemente elaborada e reelaborada, ao longo do tempo e através do espaço, e seu dinamismo acompanha a própria vida da sociedade produtora.
Esta arquitetura deve ser compreendida por suas diferentes características de estilo, de formas, de materiais e de concepções estéticas, além dos aspectos simbólicos e das relações que mantém com as demais esferas da vida cultural, social e econômica.
O estilo arquitetônico de um povo é identificado por um conjunto de características relacionadas com a forma, a cor, o tipo de decoração e técnica e matéria prima. Esse conjunto de elementos que formam o estilo de cada povo busca atingir determinados padrões estéticos. Nas culturas indígenas, o julgamento do que é bom, bonito, confortável tem por base critérios muito especiais. Tais critérios podem ser materiais, como a madeira usada nas construções; técnicos, como o modo de cortar e encaixar estes troncos de madeira; simbólicos, o que essa estrutura de madeira representa.
Em cada sociedade indígena, existem pessoas que desenvolvem conhecimentos específicos a respeito de certas categorias ou modalidades artísticas. Há sempre alguém que sabe confeccionar melhor um cesto cargueiro, um pote ou uma flauta, que sabe cantar ou fabricar um instrumento musical com mais habilidade e competência; que sabe contar histórias com mais riqueza de detalhes e domina o estilo de narração. No caso da arquitetura, por exemplo, essas pessoas conhecem as técnicas de confecção, sabem escolher e preparar as matérias primas e sabem como deve ser feito o acabamento e a decoração. De outro lado, essas pessoas geralmente detêm um saber específico sobre o uso e a função dos ferramentais existentes, o manejo da matéria prima apropriada, a escolha do local a ser implantado a construção, as dimensões e proporções. Através dessas pessoas, que podem ser chamadas de especialistas, os conhecimentos se renovam e se transmitem às novas gerações.
Análise Historiográfica
01 – O índio -
Ao falarmos da cultura indígena, precisamos antes de tudo determinar de onde ele (índio) veio e para onde ele migrou nos diferentes períodos de evolução, sua origem nos primórdios e seu desenvolvimento junto ao planeta e todas as suas variantes, do clima ao relevo, das condições oferecidas pela natureza ao sentido cultural e espiritual adotado pelos grupos.
No caso específico do índio que povoou o hemisfério sul, no continente americano, devemos nos ater àquilo com o qual se deparou e adaptou, ao longo do tempo, em diferentes lugares e regiões.
02 – Diversidade entre os índios -
Ao se separarem em grupos distintos durante sua evolução, o indivíduo teve que se adaptar a fatores externos, provocando ao longo do tempo mudanças biológicas refletidas em sua configuração física e mental, originando exigências específicas para cada grupo de adaptados. Uma destas conseqüências foi a diversificação lingüística, fato que acabou por separá-los definitivamente.
Como seqüela dessas mudanças, os costumes também seriam individualizados por grupos gerando resultados em suas vidas cotidianas que acabariam por determinar modos e maneiras de vida avessa aos seus conterrâneos e irmãos.
03 – A vida do índio -
A vida do índio se baseia na sobrevivência pura e integral junto a própria natureza, traduzindo uma forma peculiar não entendida pela cultura moderna, onde a satisfação e a alegria de viver está no simples fato que não se deve vencer ou competir com a natureza, mas sim trabalhar e conviver em simbiose com a mesma.
Sua sociedade baseia-se na interação de seus membros com a força natural do ambiente, sendo o sistema comunitário dominante em quase todos os grupos observados.
A expressão artística é um resultado desta forma de encarar e viver a vida junto a natureza. Sempre buscando retratar e valorizar a beleza através da cópia das várias faces naturais.
04 – O sagrado - .
Para o índio, os mitos e crenças foram sendo passados de geração a geração através de justificativas observadas na mãe natureza, sendo o ideal de vida, a busca por maior proximidade e carinho a mãe terra.
Tal qual a religiosidade, o saber sempre evolutivo foi transferido de geração para geração através de aprendizado entre os mais velhos, anciãos e os mais novos, buscando através de erros e acertos, formas de evolução para toda a comunidade.
05 – O índio moderno –
O índio moderno brasileiro, assim como os demais grupos indígenas passaram nos tempos modernos a se relacionarem de maneira mais abrangente com seus iguais, diferentemente de tempos antigos, onde apenas as aldeias mais próximas traçavam informações, culturas e saber.
Hoje, uma comunidade indígena do sul do país conhece e assimila informações variadas do índio do extremo norte brasileiro, sendo observado como conseqüência miscigenação entre diferentes culturas indígenas.
Por outro lado, o índio ao ter contato com os portugueses, espanhóis, negros e tantas outras culturas que aqui se estabeleceram, acabou trocando também informações, cultura e saber que resultou em uma forte miscigenação inter-racial.
Seu processo de aculturação não acabou, nem vai acabar, pois ao longo da evolução humana, estamos sempre num aprendizado adaptativo, tampouco deve acabar ou ser engolido pela cultura dominante, pois mesmo esta, sendo a dominadora, apresenta várias nuances da cultura indígena.
06 – Habitação –
Ao falarmos em técnicas construtivas da cultura indígena, podemos apenas pensar no arquétipo da oca indígena apresentada desde nossa infância nas aulas de História. Porém, a riqueza de detalhes na sua construção, utilizando soluções técnicas básicas retiradas da natureza, bem como materiais adaptados ao local implantado, revela que está longe de ser uma forma primitiva de se construir, visto que em muitos casos, as construções dos primeiros brancos aqui aportados não superavam em termos técnicos a dos nativos.
Em sua Arquitetura, o índio apresentava um domínio importante quanto a implantação de suas construções, sempre levando em conta a adaptação com o meio ambiente e a interação das atividades cotidianas com os elementos edificados. Suas construções apresentavam também soluções técnicas construtivas quanto ao sistema de ventilação, iluminação e insolação.
O sistema técnico apresentado nas edificações era basicamente comunitário, havendo uma edificação central e outras de apoio, sendo uma especialmente destinada aos homens.
A edificação não apresentava qualquer divisão interna, criando-se um grande e amplo espaço de uso comum aos seus moradores.
07 – Construções -
Os materiais utilizados nas confecções das construções eram retirados da natureza sendo os de fechamentos substituídos temporariamente, ou seja, cobertura e paredes externas substituídos de tempos em tempos por novos materiais e os elementos estruturais calculados para agüentar um determinado período, quando então haveria mudanças do grupo para outro sítio. Os ferramentais utilizados não passavam de utensílios do cotidiano, sendo o trabalho quase artesanal em sua montagem.
Quanto a tipologia, podemos dizer que nos surpreende a quantidade de variações observadas nas diferentes regiões do país, pois não só apresentam variações estruturais, mas também quanto dos materiais empregados, formatos volumétricos com diferentes resultados e não menos importante, acabamentos artísticos e decorativos buscando identificação do grupo ali existente. Abaixo podemos observar alguns exemplares distintos não comuns nos livros de História e Antropologia.

Ilustração – Irajá Gouvêa
Oca da Região Centro-Oeste
Brasil

Ilustração – Irajá Gouvêa
Oca da Região Norte
Brasil

Ilustração – Irajá Gouvêa
Oca da Região Centro-Oeste
Brasil

Ilustração – Irajá Gouvêa
Oca da Região Nordeste e Norte
Brasil
Conclusão
Não temos aqui a pretensão de elucidar ainda que de maneira modesta o assunto. Entretanto, cabe-nos despertar em outros pesquisadores e estudantes de arquitetura, antropologia, história e sociologia, curiosidade para adentrar neste vasto e complexo ramo do saber que ainda não foi devidamente pesquisado. Assim, como objetivo para futuros pesquisadores e curiosos, propomos um desafio com o objetivo :
- Reconhecer as expressões arquitetônicas como aspectos importantes na afirmação e expressão de identidades culturais;
- Compreender as expressões arquitetônicas da sociedade indígena, enquanto patrimônios culturais que devem ser preservados, valorizados, documentados e divulgados;
- Reconhecer traços que singularizam as produções arquitetônicas entre as diferentes sociedades indígenas;
- Dominar recursos, técnicas e demais procedimentos de organização; documentação e divulgação do patrimônio artístico da sociedade indígena;
- Compreender a multiplicidade de manifestações artísticas-culturais que existem no Brasil, bem como os aspectos que diferenciam e aproximam as várias culturas e povos ;
- Valorizar o saber dos especialistas/produtores em arte dentro da sociedade indígena. Compreender a arte como uma forma de aproximação entre as diversas culturas, observando os elementos que marcam as diferenças e semelhanças;
- Identificar como esta diferente linguagem arquitetônica se apresenta em outras culturas;
- Reconhecer os diferentes valores culturais nas minorias étnicas e sociais existentes no Brasil;
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